
Não precisava de muito pra me fazer feliz no Natal. Nada de carrinhos, bonecos, vídeo-games ou afins. O que eu queria mesmo era ganhar uma bola. Sim uma simples bola.
Bola de capotão era como chamávamos. Com a maioria dos gomos brancos e alguns poucos estrategicamente pretos. Aquela bola gostosa de chutar que fazia um barulho inconfundível na rua. Barulho esse tão singular que em questões de minutos já se via na rua dois times preparados e um fazendo próximo.
Como era gostoso bater naquela redonda. Ela ia no lugar certo. Claro que isso dependia também da habilidade de quem chutava. Bola gostosa de matar no peito e de cabecear cara-a-cara com o goleiro.
Me lembro de como rondava todos os dias a nossa árvore em busca daquele embrulho redondo e destoante de todos os outros presentes. Eu acordava e corria pra ver se meu Papai Noel já havia deixado a minha preciosidade.
Claro que os meus Papais e Mamães Noel já sabiam dessa minha curiosidade e faziam questão de esconder bem a pelota.
E eu passava os dias no fim do ano letivo somente imaginando como seria jogar com a minha bola. Como seriam meus gols. Como a torcida reagiria a cada golaço do artilheiro. Como no ultimo momento, eu e minha bola salvamos o titulo quase perdido.
Era grande a angustia. O tempo passava e nada do meu precioso presente aparecer. Era sempre uma tortura imaginar a possibilidade de naquele ano não ganhar a minha bola.
Até porque a bola anterior já não existia mais. E quando existia já estava num estado deplorável de conservação.
Mas bola é pra isso mesmo. Para ser jogara. Para gastar. E para ganhar outra no fim do ano.
Poucos dias para o Natal e nada do meu presente. Chegava a ter febre de tão ansioso que ficava. Já fazia uma lista da quantidade de erros que tinha cometido no ano. Tentava imaginar que Papai Noel havia contado todos e estava insatisfeito comigo.
Tudo perdido. Com o que eu iria fazer meu golaço no ultimo minuto da partida?
Com outra bola não teria a mesma graça. Perigava de errar o gol porque não era a minha bola.
Sem esperanças, já acordava no dia 25 imaginando que seria um dia comum. Um dia de meias e cuecas. Um dia de muita comida mas pouca farra pra mim.
Chegava a chorar quando olhava para a árvore e ela estava lá. Aquele sempre embrulho redondo. Diferente de todos os outros.
Meu Papai Noel não falhava nunca.
Assim espero que seja o Natal de todos.
Que comece o tempo de renovação.
Feliz Natal.
Fim da transmissão...


