24 Dezembro, 2007

Todos os Natais


Não precisava de muito pra me fazer feliz no Natal. Nada de carrinhos, bonecos, vídeo-games ou afins. O que eu queria mesmo era ganhar uma bola. Sim uma simples bola.

Bola de capotão era como chamávamos. Com a maioria dos gomos brancos e alguns poucos estrategicamente pretos. Aquela bola gostosa de chutar que fazia um barulho inconfundível na rua. Barulho esse tão singular que em questões de minutos já se via na rua dois times preparados e um fazendo próximo.

Como era gostoso bater naquela redonda. Ela ia no lugar certo. Claro que isso dependia também da habilidade de quem chutava. Bola gostosa de matar no peito e de cabecear cara-a-cara com o goleiro.

Me lembro de como rondava todos os dias a nossa árvore em busca daquele embrulho redondo e destoante de todos os outros presentes. Eu acordava e corria pra ver se meu Papai Noel já havia deixado a minha preciosidade.

Claro que os meus Papais e Mamães Noel já sabiam dessa minha curiosidade e faziam questão de esconder bem a pelota.

E eu passava os dias no fim do ano letivo somente imaginando como seria jogar com a minha bola. Como seriam meus gols. Como a torcida reagiria a cada golaço do artilheiro. Como no ultimo momento, eu e minha bola salvamos o titulo quase perdido.

Era grande a angustia. O tempo passava e nada do meu precioso presente aparecer. Era sempre uma tortura imaginar a possibilidade de naquele ano não ganhar a minha bola.

Até porque a bola anterior já não existia mais. E quando existia já estava num estado deplorável de conservação.

Mas bola é pra isso mesmo. Para ser jogara. Para gastar. E para ganhar outra no fim do ano.

Poucos dias para o Natal e nada do meu presente. Chegava a ter febre de tão ansioso que ficava. Já fazia uma lista da quantidade de erros que tinha cometido no ano. Tentava imaginar que Papai Noel havia contado todos e estava insatisfeito comigo.

Tudo perdido. Com o que eu iria fazer meu golaço no ultimo minuto da partida?

Com outra bola não teria a mesma graça. Perigava de errar o gol porque não era a minha bola.

Sem esperanças, já acordava no dia 25 imaginando que seria um dia comum. Um dia de meias e cuecas. Um dia de muita comida mas pouca farra pra mim.

Chegava a chorar quando olhava para a árvore e ela estava lá. Aquele sempre embrulho redondo. Diferente de todos os outros.

Meu Papai Noel não falhava nunca.

Assim espero que seja o Natal de todos.

Que comece o tempo de renovação.

Feliz Natal.


Fim da transmissão...

10 Dezembro, 2007

É assim que eu sonho...

"Para amarte
Necesito una razón
Y es dificil creer
Que no exista una más
Que este amor

Sobra tanto
Dentro de este corazón
Y apesar de que dicen
Que los años son sabios
Todavía se siente el dolor
Porque todo el tiempo
Que pasé junto a ti
Dejo tejido
Su hilo dentro de mi..."

- Ah, porque desligou o som? Eu adoro essa música. Era com ela que várias vezes pensava em você.

- Mesmo? Me desculpa. Você sabe como sou meio grossinha. Estou nervosa.

- Eu sei. Tudo bem. Eu só queria te acalmar um pouco. Sei que eles são importantes demais para você. Fique tranqüila. Eu vou me comportar direitinho.

- Ah, seu bobo. Eu sei que vai. E sei que eles vão te adorar. Mas eu sou encanada mesmo. Principalmente por não ter levado você antes. Acho que eles pensarão que eu estava te escondendo ou que tenho vergonha deles.

- Imagina. Eles sabem exatamente que você os ama incondicionalmente. E se eu perceber que eles estão ficando pouco a vontade eu conto uma piada. A do Pinóquio?

- Não ouse. – risos.

- Que tal a do bebê que fala “póla”?.

- Pelo amor de Deus. Eles não gostam de palavrões – risos.

- Viu? Ao menos te fiz sorrir.

- Você sempre me faz sorrir. Mesmo antigamente quando ficava lá sempre conversando comigo. Sendo aquele cara que nunca desistia. E todos os dias de manhã me fazia dar gargalhadas.

- Ah, fazer o que se sou assim? – risos

- Bobo, fica se achando ai fica.

- E como não “ficar me achando” namorando uma mulher como você?

- Agora ta me deixando vermelha.

- Agora que ficou nostálgico foi eu. Me lembro como você corava sempre que eu a elogiava. Como foram tempos difíceis aqueles. Eu sabia da sua situação e sabia de tudo o que acontecia com você. Ficava feliz por você estar feliz. Mas no fundo nunca me senti muito feliz. Eu a queria, mas não podia. Bom era desfrutar da sua companhia, do seu bom humor. Do jeito simples que você encarava as coisas. Fora que você sempre foi linda. Sonhava com você a maioria das noites.

- E eu fui descobrindo que homem bacana você era. Simpático, alegre, atencioso. E persistente.

- Isso eu fui mesmo. Achei que em alguns momentos você iria enjoar de mim.

- Em alguns enjoei. – risos

- Fez bem. Melhor ainda quando você falava. – risos

- Você foi minha cobaia. - risos - Precisava aprender a não falar certas coisas para não magoar as pessoas. Ou ao menos dizer de uma maneira mais amena.

- É. Você me dava umas patadinhas, mas eram patadas de gatinha. – risos

- Bobo! Estamos chegando. Ai minha barriga.

- Calma amor. E se eu disser para eles que amo muito você. Muito mesmo. Por muito anos amei e continuarei amando. Que é com você que quero casar e ter filhos e que é com você que eu quero acordar todos os dias de manhã. Quero que seja a mãe dos meus filhos e que ensine a eles a ser igual a você. Uma mulher valorosa.

- Benhê. Eu te amo.

- Amo você Benhê.

O Audi TT encosta. Os dois saem do carro e ficam abraçados por longos minutos. Um sentindo o amor do outro em forma de batidas do coração. Os dois sabem que ali começa o primeiro dia do resto de suas vidas. Ali, tiveram certeza que seriam felizes, que se amavam e se respeitavam. E que construiriam uma família alegre e respeitável.


Fim da transmissão...

04 Dezembro, 2007

Em um ônibus qualquer.

Certo dia estava nas ultimas páginas de um livro. Anoitecia. Estava em um ônibus, sacolejante, mas sossegado indo para a casa. O livro era realmente bom e me prendia por completo ainda mais no desfecho da trama. Somente o barulho do motor do ônibus quebrava o silêncio de uma noite morna e estrelada.
Mas o silêncio foi quebrado por duas mulheres que subiram em algum ponto por ai. Falavam um pouco mais alto do que o normal. Mas nada anormal. Não dei importância até uma delas sentar do meu lado. Continuei não dando importância. Não estavam incomodando. Sacolas e uma blusa no colo de uma. Percebi porque caia um pouco para o meu lado. Eram sacolas de lojas de shopping e a blusa era de um verde que chamou a atenção. Bonita, bem macia a primeira vista. Lembro de ter pensado que a menina tinha bom gosto.
Ultima página do livro.
- ...então ela do nada, do meu lado enfiou o dedo no nariz.
- Nossa que nojo!
- E continuou. Ela cutucava, olhava o dedo, passava na blusa. Olhava os carros lá. Cutucava o nariz e passava na blusa. Aquilo foi me enojando.
- Não é pra menos. Que horror, como uma mulher faz isso ainda dentro do ônibus. E ainda passa na blusa.
- Eu estava com medo de chegar perto daquela blusa. E era uma menina linda. Olha Elaine, era ela linda mesmo. Toda branquinha de olhos claros.
- Credo Helen. Do que adianta se bonita e porca?
Ai fui obrigado a sorrir. Porque apesar da história ser porca foi contada com muito animo.
Elas reparam e olharam pra mim. A que estava de pé trajava uma calça e uma blusa jeans com um top branco. Uma barriga linda, belos cabelos castanho escuro mas de um rosto Libanês demais para o meu gosto. Lembrei de damasco na mesma hora.
A que estava sentada do meu lado, a declamadora da história, era linda. Rosto bem feito de mulher. Delicado mas com a boca bem definida e carnuda. Olhos bem alocados centralizando um nariz que mais parecia esculpido por mãos de algum grande escultor. Lindos cabelos negros que iam até os ombros. Bem vestida em um terninho preto. Agora os olhos. Que olhos. Não olhavam, flechavam.
Ela sorriu de volta, olhou pra mim e disse:
- Como pode né? Pessoas fazendo isso em publico. Acho que perdemos a noção de no mínimo higiene.
Dei de ombros.
- Vai ver ela estava com algum problema... na blusa. Estava só dando um jeitinho de colar algum buraco.
Ela sorriu.
- Então era um buracão porque ela fez isso o caminho inteiro.
Depois disso ela continuou a conversar com a garota de pé. E eu me deparei com o seguinte dilema: Terminar o livro ou olhar pra ela?
Cinco minutos depois eu havia terminado o livro e o fechará, mas juro que não me recordo de nenhum trecho. Passei 5 minutos olhando a garota e olhando de rabicho para o livro. Fiz uma cara de satisfeito quando ela olhou pra mim.
- Sabe. Preciso ler um livro. Não fico sem ler um livro e já faz dois meses que terminei o ultimo.
Isso foi uma cantada não foi? Não é possível. Eu não perdi a noção do que realmente é uma cantada. Isso foi uma cantada. Ao menos me pareceu. A pessoa do seu lado fecha um livro e você diz: “Preciso ler um livro”. Você quer o livro não é?
Abri minha pasta lentamente. Tirei uma caneta. Escrevi meu nome e meu telefone na capa do livro.
- Pra você. Pode me devolver ou não. Você escolhe.
- O que?
- O livro. Não disse que queria ler um livro?
- Mas eu nem conheço o senhor.
Senhor? Não era mais velho que ela.
- Não importa. É um presente. Não precisa me conhecer pra ganhar um livro de presente. Esse é muito bom. Eu garanto.
- Não, não. Obrigada.
E se levantou.
Fiquei constrangido. Todos no ônibus me olhavam. Será que fiz algo de errado. Ela foi embora e nem olhou para trás. Tinha uma expressão de orgulho e medo.

Algum tempo depois na mesma linha de ônibus.
- Oi!
- Errr...oi.
- Eu deveria ter aceitado o livro não é?
- Como?
- É o livro que você me ofereceu. Estava, faz uns dias, nesse ônibus e do nada você me ofereceu o livro que lia.
- Eu? Você tem certeza?
- Absoluta. Não se lembra de mim?
- Honestamente não. E me lembraria, mas não falo com quem não conheço e nem ofereceria um livro. Creio que está me confundindo.
- Não estou não. Claro que era você. Eu sentei do seu lado e conversamos sobre uma garota que colocava o dedo no nariz.
- Um pouco absurda essa história não acha?
- Acho. – Ela sorriu – Mas tenho certeza que era você. Tem irmão?
- Tenho, mas já adianto que ele nem se parece comigo.
- Nossa muito estranho. Jurava que fosse você.
- Essas coisas acontecem. – Me levanto.
- Ei, mas você ofereceria um livro pra mim?
- Só se fosse mais corajosa.

Fim da transmissão...

24 Novembro, 2007

Me sinto nojento

Estou me sentindo sujo. Acordei assim no inicio dessa semana. Não sei bem se a palavra é essa: Sujo. Mas é o que mais chega perto. Cansado também seria uma forma de me qualificar. Mentalmente e fisicamente.

Minha mente está embaçada. Sabe quando, numa noite de muita chuva, você resolve sair com o carro, mas seu corpo quente dentro do carro faz todos os vidros embaçarem e por algumas gotículas de água os faróis dos outros carros cortam suas pupilas feito diamante? Esse sou eu andando por ai.

Eu consigo ouvir muito bem o que as pessoas falam. Consigo até sorrir. Mas dois minutos depois eu não estou me lembrando de nada do que estamos conversando. E Isso me deixa muito irritado. Logo começo a reclamar ou conversa de algo que quero malhar. Ando sempre com sono.

A minha mente só se abre para lembrar de coisas feias que fiz. De coisas que eu deveria ter me arrependido de ter feito. De inúmeras vezes que alguém disse: Paulo. Eu estou muito chateado com você.

Meu corpo parece atravessado por facas quando eu ando. Minhas pernas doem na parte de trás. Sinto um peso descomunal nos meus ombros. Minhas mãos estão sem força.

O engraçado de tudo isso é ouvir do médico que está tudo bem comigo. Que preciso de férias. Pro diabo todos os médicos. Todas as doenças do mundo agora se remetem a dois diagnósticos. Virose e Stress.

O que eu queria realmente agora era não me relacionar com as pessoas. Queria me esconder. Aliás é o que estou fazendo, mas to pouco confortável com isso. Ainda tem uma pessoa aqui. Eu mesmo.

Não vejo graça nenhuma nas coisas que estão na moda hoje. Series de TV, MP3 players, micaretas, raves, shows. Não posso deixar de pensar em Idiotas quando penso nisso. Parece que o mundo ficou limitado a ter ou não ter certas coisas. Fazer ou não fazer coisas que um grupo faz. Ou você tem uma I-Phone ou é um bosta. Ou você vai com a “galera” numa festa ou também é um bosta. Você tem carro? Bão? Então me desculpe, mas você não é bom o suficiente pra mim. Você tem que usar a roupa da moda, beber a bebida da moda, jogar o jogo da moda. Credo. Digam a verdade, não dá nojo tudo isso?

Tudo está tão banal.

Qualquer demonstração de carinho hoje significa que você é EMO.

Qualquer tentativa sua de ir de encontro a qualquer dessas manifestações é NERD.

Tudo hoje é estereótipo.

Hoje mesmo eu ouvi um: Paulo, você é um suicida potencial.

Mas eu não to atentando em nada contra minha vida. Nem contra a de outras pessoas. Eu só queria que as coisas voltassem ao normal.

Talvez eu me sinta sujo hoje porque na verdade é assim que cada pessoa se sente. É sujo matar as pessoas estereotipando-as assim. É sujo usar as pessoas para seu beneficio próprio. Eu me sinto assim. Usado e usando.

Fim da tranmissão...

14 Novembro, 2007

Quente ou frio. Morno nunca!


A primeira vez que ouvi essa expressão foi o Sr. Miyagi falando para o Daniel:

- Daniel-san. Karatê bom. Bom! Karatê ruim. Bom! Karatê mais ou menos. Bahhhh! Te rasgam no meio.

Fingi que entendi na hora. Mas, alguns anos depois, ouvindo o sermão do imortal Padre José da paróquia São Marcos:

- Sua fé tem que ser algo definido. Ou você tem, ou você não tem. Sua fé deve ser quente. Sua fé tem que ser fria. Mas nunca sua fé deve ser morna.

A primeira coisa que pensei foi - “Olha só. O padre chupinhou o Sr. Miyagi.” – mas parando pra pensar depois eu vi que isso é uma verdade.

Em muitas vezes na vida você não pode ser “mais ou menos”. Você tem que ter uma opinião. Se manter em cima do muro pode ser extremamente perigoso ou criar uma situação de desagrado. Mesmo sendo político na ocasião, você deve tender para um dos lados ou será atropelado meu rapaz.

Transferindo para a vida real, me vi em meados de 2002 participando de um processo seletivo dentro do banco onde trabalhava. Era um cargo concorrido e tinha, pelo menos, 20 pessoas dentro de uma sala fazendo as famosas e terríveis dinâmicas de grupo. Em determinado momento foi dada uma situação de atendimento onde parecia que tanto cliente, quanto instituição tinham razão. E veio a pergunta:

- De que lado vocês ficariam?

De bate-e-pronto um punhado disse que os dois tinham razão. Por isso disseram que resolveriam de uma maneira que os dois ficassem com suas razões.

Ai pensei. Nenhum dos dois abrirá mão da razão. Terei que pensar no ponto crucial da questão e defender uma dos lados. Depois de muito pensar e analisar o ponto mais fraco, o cliente, vi que ele não era tão fraco assim. Era “potencialmente” bom para o banco. Fiz minha escolha, assim como uns 3 a fizeram também.

Batata. Era essa a solução para a questão. Mas não a única. Aqueles que escolheram o lado do banco nessa simulação também merecem vários elogios. Justamente porque tiveram pulso e firmeza para tomar uma decisão.

No final, acabei sendo escolhido para a vaga com mais 2 pessoas. Mas descobri pouco tempo depois que não “valeu o esforço”.

Moral da história 1: Sr. Miyagi daria um bom padre assim como Padre José daria um bom sensei de karatê.

Moral da história 2: Da para aprender alguma coisa indo na igreja e assistindo filmes.

Fim da transmissão...

13 Novembro, 2007

Equilíbrio


Eu me recordo exatamente de quando eu aprendi que tudo na vida depende de um equilíbrio. Como todo bom garoto, eu jogava futebol no time da empresa em que meu pai trabalhava. Uma moda na época. Era quase que religião o pai, desportista, levar o filho para jogar pelo time da empresa, principalmente se a empresa fosse um banco. E no caso era o extinto Banerj (Banco do Estado do Rio de Janeiro). Por ser o maior e mais desajeitado eu era o goleiro. Muito bom goleiro por sinal, mas tenho que admitir que não teria lugar como jogador de linha naquele time. Só tinha craque.

Tanto era verdade que quando íamos jogar, uma legião de desconhecidos ia atrás para assistir. Começou lá na quadra na Vila Guilherme onde jogávamos. Bastou dois amistosos para que os adultos que jogavam em outros horários chegassem, hora mais cedo, hora mais tarde, para ver o jogo dos Piratas. Era esse o nome do time justamente por causa do Rafael.

Rafael era filho de japoneses. Apelidado sabiamente por nós de Pirata porque era o mais perna de pau da turma. Naquele time onde “chapéus”, “rolinhos” e “mexicanos” era aplicados aos montes, o Pirata era o único que as vezes tropeçava na bola. Outras tantas vezes deixava a “gorduchinha” passar por debaixo do pé. E milhões de vezes perdeu gols onde só estava ele, as traves e a bola.

Naquele nosso primeiro ano ganhamos tudo. Tenho até hoje a placa que ganhei no campeonato do Clube Esperia. Diz lá: Melhor Goleiro. Mas não tinha como não ser. Anderson (Dê), Rafael (Pirata), Roberto (Betão), Roberto (Betinho), Douglas (Preto) e os reservas, Alexandre (Júnior), Thiago (Pelego) Jonathan (Baiano) e Cássio (Alemão).

Olha, falando sério, a bola nem chegava em mim. Tanto era a disparidade que no meio do ano participamos de um campeonato de uma categoria maior que a nossa. Era meninos mais velhos e maiores. Ganhamos também.


O outro ano começou com uma noticia um pouco ruim. O Rafa iria se mudar e não jogaria mais no time. Uma pena, mas não tão grande. Ainda bem que foi o Pirata e não o Betinho pensei eu. Vamos ganhar tudo esse ano.

Não foi bem isso que aconteceu. Dá pra contar nos dedos de uma mão as partidas que ganhamos. Sai de um jogo chorando de raiva porque nada dava certo e perguntei pro meu pai algo que pra mim era inexplicável:

- Pai, nos temos os melhores jogadores, temos o melhor time porque não ganhamos nada? Os moleques jogam muito, são muito bons mas não fizemos nenhum gol. O que ta errado?

- Exatamente ai o erro Anderson. O time de vocês tem estrelas demais mas ta faltando o cara pra trombada. O cara pra correr a quadra toda. Ta faltando um jogador que ta mais preocupado em jogar bola e não dar show.

Estava faltando o Pirata. O que na gíria do futebol chamam de “O carregador de piano”. Estava faltando o ponto de equilíbrio.

Me parece que na vida tudo é assim. Comer demais é ruim. Comer de menos também. Comer moderadamente é o que é bom. Fazer exercício de mais é ruim, de menos é ruim, moderadamente é bom. E os exemplo são vários. De certo é que sendo ponderado e moderado você toma uma postura que alguns chamariam de antiquada demais. Mas da certo. Pode reparar que tudo que dá certo tem um pouquinho de algo que é errado. Ying Yang gritaria os chineses. Mas como tudo na vida, até o equilíbrio precisa ser quebrado.

Equilíbrio demais é ruim, equilíbrio de menos é ruim....


Fim da transmissão...

13 Setembro, 2007

Vida Café

Nossa! Somente uma nova cafeteria para me fazer passar pela área antiga desse hospital. Quero me esbaldar em uma xícara de capuccino Credo. É de dar arrepios aqui. Parece um quintal de casa mal-assombrada. Arvores retorcidas, casebre do antigo zelador, o antigo necrotério. O que será que eles guardam lá agora? Tudo isso me fez pensar nas pessoas mortas que passaram por aqui. Mau agouro. Quando um médico de 49 anos começa a pensar nos seus pacientes mortos é porque alguma coisa não vai bem.

Mas engraçado é pensar que eu poderia ter salvado as pessoas que morreram aqui. Sim, poderia. Oitenta anos atrás eu seria quase que um milagreiro. Poderia ter feito as pessoas viverem mais. Nossa outra coisa engraçada. Oitenta anos atrás as pessoas tinham a qualidade de vida melhor, mas não tinham o avanço da medicina para poderem usufruir mais de um mundo sem estresse, com menos poluição, com mais atividade física, sem computadores idiotas dizendo que a senha está errada quando ela está certa.

E hoje, quando é posto realmente em prova se é necessário viver tanto, podemos até dobrar a expectativa de vida de uma pessoa. Bom, viver é viver né? Não importa se a vida é ruim ou boa. Ou importa? Se for igual a uma xícara de capuccino tenho que admitir que importa. Claro. Se o café for ruim o capuccino será ruim. E é realmente detestável tomar uma xícara de capuccino ruim. Mas para saber se é ruim eu tenho que tomar né? Droga! Detesto lugares que me fazem pensar. Esse é um deles. Eu nunca havia passado por aqui. Em 10 anos nesse hospital é a primeira vez que venho por esse caminho. Esse maldito café vai ter que valer muito a pena mesmo.

É o medo que faz isso comigo. Fico pensando para poder fingir a mim mesmo que não to morrendo de medo.Medo.

É isso mesmo. Medo. As pessoas ainda têm medo da morte por isso querem viver mais. Não importa se a vida delas é ruim. A morte será pior. É aquela história. Seja uma má pessoa em vida e o inferno te aguarda. Isso ainda assusta muita gente. Eu as vezes penso em não salvar a vida de um deputado ou senador que anda metendo a mão em dinheiro do povo. O inferno deveria ter transmissão ao vivo. Adoraria ver pessoas assim sofrendo na mão do chifrudinho. Mas é a vida né? Tenho que manter ele vivo. Mas realmente, vale a pena estar vivo?

- Por favor, uma capuccino.

- Ai moço. A maquina de café ta quebrada. Posso te servir um suco?

- Droga de vida.


Fim da transmissão...